Havia um homem covarde. Por mais que fosse provocado ou humilhado, permanecia calado em seu canto. Era motivo de riso para todos, respeito não tinha nenhum.
Temia qualquer coisa que passasse em seu caminho, temia qualquer um que levantasse a voz. Era enganado facilmente e mesmo que percebesse, não fazia nada, abaixava a cabeça e aceitava.
Era solitário o pobre homem. Seu pai, não conhecera, sua mãe há muito o deixara pela tuberculose. Tinha que se virar com o pouco que tinha, sem ajuda alguma. Aliás, podia contar com todos para atrapalhar um pouco mais.
Um dia, conheceu uma mulher que lhe agradava os olhos. Por incrível que pareça, esta não o tratava mal, sempre era agradável com ele e achava um absurdo o que faziam com aquele pobre homem. Após algum tempo, casaram-se.
Este homem passou a perder seus medos. Dia após dia ficava mais duro e tolerava menos daqueles que abusavam de sua paciência. Descobriu que era forte e que não precisava temer a ninguém. Tornava-se, aos poucos, um homem violento nas ruas, um homem que não levava desaforos para casa, um homem sem paciência, muito diferente daquele que fora há tempos.
Tinha muito ódio para distribuir, acumulado nos anos de humilhação, portanto, os desavisados que levantavam a voz para ele, não viam o sol nascer na manhã seguinte. Logo ficou conhecido como o Homem Sem Medo.
Um dia, enquanto brigava na rua, como de costume, sua mulher chegou gritando seu nome e exigindo que voltasse para casa. -“É o fim da pobre mulher que se casara com este homem violento.”- Foi o que todos os presentes pensaram. Porém o Homem Sem Medo murchou, abaixou a cabeça e foi com sua mulher para casa.
No dia seguinte, em seu trabalho, seu peito estava inflado novamente. Um amigo perguntou: “Você é um homem sem medos, já o vi assassinar sem problema algum, homens perigosos. Por que permitira que uma mulher, frágil e delicada, o humilhasse dessa forma?” – O Homem Sem Medo respirou fundo: - “Meu amigo, não sou um homem sem medos. Já assassinei dezenas de homens duros como pedra, enfrentei as trevas da noite e tudo o que é mais temido. Porém temo menos o inferno e os demônios do que um dia perder a companhia daquela mulher.”
E quem diria que o homem sem medos no coração, não temia nada além da solidão.