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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um Novo Lar

Um Novo Lar

Esta é a história de um homem que vivia em uma grande ilha. Pouco sabia da civilização, não conhecia a tecnologia. As poucas palavras que sabia seu pai o ensinara. Este sim conheceu a civilização, as guerras e o amor. Tudo o que este homem sabia sobre as pessoas era “fique longe” – seu pai o instruiu assim.

Na parede de sua pequena casa de madeira havia um quadro. Seu pai dissera que é um quadro sobre o amor. Nele, um homem entrega uma flor a uma mulher e esta retribui com um sorriso. Mulheres gostam de flores. Era tudo o que sabia sobre elas. Nenhum homem na terra sabe muito mais do que isso.

Não era feliz, pois não sabia o que era isso. Mas sentia algo estranho, ruim, quando se lembrava de seu pai, que um dia, após um estalo, caiu no mar. As ondas, sujas de vinho, o levaram embora para nunca mais voltar. Mesmo assim ele esperava.

Um dia chegou um navio. As pessoas que dele desceram eram diferentes. Não sabia o porquê, mas eram. Logo derrubaram sua casa, asfaltaram o chão e instalaram muitas luzes. Fizeram-no dormir no chão e no sereno. Seu quadro foi vendido.

Logo aprendeu que ali não era o seu lugar. Nascera ali, vivera ali, mas de alguma forma, aquilo não pertencia mais a ele. Percorreu a ilha toda a procura de abrigo, mas onde quer que fosse olhares e dedos o perseguiam.

Sempre que passava por certa rua, via uma mesma mulher. Sua aparência era agradável. Um dia lembrou-se do seu quadro e apanhou a flor que julgou ser a mais bela e entregou-a para a mulher. Porém ela pisou em sua flor. O quadro estava errado. O amor não existia. E por alguma razão chorou como chorava quando se lembrava de seu pai.

Sentou-se um dia à beira do mar. Lembrou-se de tudo o que acontecera desde que aquele navio ancorara em sua ilha. Perdera tudo. Ficou observando o horizonte se apagar e se fundir com o mar. A vontade de entrar na água tomou conta do seu corpo. Caminhou até seus pés não alcançarem mais o chão. Sentiu a água levando-o para algum lugar. Quando já não conseguia mais ver as luzes da ilha, sua cabeça afundou, mas não sentia vontade de voltar para a superfície. Sentia-se bem ali. Sentiu que ninguém o expulsaria de lá.

Sua visão foi escurecendo. Sentia seu corpo leve como se estivesse voando.
E hoje no fundo do mar dois corpos se abraçam.